Padre Marcos Tillia – O pássaro voador faz seu último voo

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Hoje, quinta-feira santa, 01/04/ 2021, morre em São Gabriel-BA, padre Marcos Tillia que doou sua juventude, como Missionário, ao povo de Sento-Sé. Nossa cidade fica triste, pois o pássaro de asas brancas, como anjo enviado do Senhor não pode mais voar, aliás fez seu último voo ao encontro do Senhor. Padre Marcos, salvou muitas vidas, no pequeno avião ASA BRANCA que para muitos dos nossos catingueiros nunca foi um avião e sim um pássaro que pousava em qualquer lugar, que não precisava ser árvore, era no chão, era nas pedras, no barro, na lama, era nas serras sempre com alguém a bordo. Padre Marcos chegava, voando, no momento certo para salvar vidas humanas, que sempre importam.

ASA BRANCA ou espanta urubu como alguns chamavam. Fonte: Arquivo Edonilce Barros.

Em 1970 ele voou no ASA Branca dos Estados Unidos para Sento-Sé. Cada vez mais ciente que era preciso um voo mais alto, foi aos Estados Unidos da América, seu pais de nascimento, em 1972, com o consentimento do Bispo Diocesano dom Tomás Guilherme Murphy negociar com a congregação das Irmãs de Santa Maria, em Saint Louis, Missoury, donativos para comprar um avião maior para salvar mais vidas no município de Sento-Sé, até então esquecido das politicas publicas, especialmente de educação e saúde, ação que assumiu desde sua instalação na Paróquia de São José, em Sento-Sé.

Padre Marcos com as irmãs Vitória Ewers, Jovita Stenger e a Madre superiora Mary Emeline Hitpas. Foto: Arquivo Edonilce Barros

Não só trouxe o avião maior, mais foi testemunha das tratativas de D. Tomás para trazer para Sento-Sé as Irmãs de Santa Maria, para se dedicarem à saúde do município. Em 02 de maio 1972 chegam a Sento-Sé Irmã Vitória (nutricionista) e Irmã Jovita (enfermeira) que passam a voar com padre Marcos, cuidando da saúde do povo no município.

Sento-Sé dá as boas vindas às irmãs Jovita e Vitória. Fonte: Arquivo Edonilce Barros.

Padre Marcos foi de Sento-Sé, no avião novo, para Petrolina buscar as irmãs que eram aguardadas pelo pároco Padre Bernard Van Hoomissen. Elas passaram a residir no Centro Social, construído pela Diocese para abriga-las e cuidar do povo de Sento-Sé.

Centro Social São José e casa das irmãs. Foto: Arquivo

O Centro Social São José servia como casa e clínica de 1972-1976, até a mudança para a Nova Sento-Sé, com a construção da Barragem de Sobradinho. Tinha um grande salão, 3 quartos, uma farmácia e uma cozinha, além de um muro onde ficavam os banheiros. Era para este local que padre Marcos trazia os doentes, a qualquer hora do dia ou danoite, em seu avião, para serem cuidados pelas irmãs.

Irmã Jovita, Padre Marcos e padre Bernando.

Começa então uma longa caminhada e parceria, entre as irmãs e padre Marcos, todos jovens, levando a esperança para o povo de Sento-Sé. Assim como não tinha médicos ou agentes de saúde, Sento-Sé tinha uma Igreja, mas não tinha padres. Exatamente padre Bernardo foi o primeiro vigário da paróquia de Sento-Sé, cuja capela de São José foi construída em 1719 e somente depois de 254 anos foi ter o seu primeiro vigário, padre Bernardo que chegou em 1966 e depois se juntou a ele padre Marcos que chegou em 1970.

Igreja de São José e a rua da casa dos Padres. (penúltima à direita).

Mesmo nas condições de vida simples, existiam os momentos de confraternização. Os aniversários eram celebrados e nesses momentos eles aproveitavam para falar a sua língua (o inglês), pois o exercício do português era muito difícil, coisa que padre Marcos nunca conseguiu aprender direito, tanto que seus sermões eram muito curtos. Se durasse mais que três minutos o povo não entendia nada.  

Momento de celebração do aniversário de padre Marcos (07/02/1974) – Irmã Jovita, Padre Marcos, Irmão Marcos, Irmã Mary e Irmã Stella.

Sento-Sé, não vai lembrar de Padre Marcos do seu estado atual de esquecimento, acometido pelo mal de Alzheimer. Sento-Sé vai lembrar de padre Marcos como o padre aviador, como o padre bonitão, como o padre que puxava as orelhas dos meninos que conversavam na igreja, como o padre que não sabia fazer Sermão. Mas o seu Sermão era o sermão das montanhas, quando sobrevoava as serras do Mimoso, o sermão dos pobres do interior que ele trazia para estudar no pensionato que ele criou e mantinha, o sermão dos que clamavam por socorro, sem meios de transportes que pudessem salvar vidas. O sermão das viagens todos os anos para os Estados Unidos, em suas férias, para sair com o pires na mão arrecadando fundos para os pobres de Sento-Sé, para investir na educação dos filhos dos trabalhadores pobres que de outra forma não tinham como coloca-los para estudar, para investir na construção de um Colégio.

Hoje são tantos médicos, advogados, pedagogos, padres e tantas outras profissões, graduados, pós-graduados, mestres, doutores filhos e filhas de pais pobres de Sento-Sé, que de certa forma receberam o apoio de Padre Marcos. Não devemos chorar sua morte, devemos agradecer a Deus pelos seus feitos, agradecer por ter nele um protetor, um cuidador de almas e de vidas, do seu jeito, da sua forma de ser, mas jamais esquecer que ele foi um ser humano de oração com ação. Descanse em Paz Santo Padre em seu último voo. Viva a Paixão e Morte de Jesus com Ele e festeje a Pascoa no Céu.

Padre Marcos, você saiu de sua Terra e percorreu verdes pastagens dando pão a quem tinha fome, saciou a sede de injustiçados. Os sedentos e famintos de justiça foram libertados. Sua Missão, portanto, na terra foi cumprida, agora ela será eterna nos Céus. Que a luz perpetua o ilumine!

Descanse em Paz!
07/02/1932 – 01/04/2021

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